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palavrasfelinas

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Somos macacos não educáveis

Estes tempos incoerentes
Comandados por genes transformados in vitro
Cheios de perdição e de adversidades diversas
Não escutam o sibilante assobio da serpente.
Somos macacos não educáveis...
Bestificados seguimos num desregrado passeio
Seguindo a música mágica e inebriadora da esperança
Até à profunda toca do martírio.
(Haverá pior martírio que não encontrar sentido na existência?)
Vivemos pregados a cruzes que não encomendámos
Zurzidos em corredores ventilados por agonias!
Onde os contrabandistas de almas solfejam silêncios infernais e demoníacos
Como engajadores de ilusões inconfessáveis.
Quem guardou no ouvido os tempos da fartura?
Quem desorientou os ginetes transviados,
Enchendo os cavaleiros de tristeza?
Hoje choramos copiosamente o dinheiro gasto
Com os músicos que nos arrastam para o abismo!

Eis o retrato de um animal inexótico

Esquece-se de acompanhar o sonho
Andando a direito sobre uma linha imaginária
Não curva as pernas...como se caminhasse sobre andas.
Procura o disfarce no riso parvo e desconexado
Abrindo a boca como um sino desafinado mostrando a lagartal língua.
Imbuído na sua aparência caricata
Está em consonância permanente com o disparate.
Orfâo de vida e de lanugem, a cabeça é uma bola tímida
Onde não cabem as dietas alimentares...
Para vegetar basta-lhe o cartão multibanco
É uma coisa sem força...desengonçada...
Desgraciosa... pela parte do parto.
Dominado pela fêmea...
Evita afanosamente as angústias do contraditório.
Detesta o confronto e manipula as falas...
Se tem fantasias...vivem disfarçadas e esquecidas...desmembradas...
Na sua vida nada espirra, nada arde, não há faúlhas...
O diário impôs nele uma rotina de cão acorrentado...
E a sua vida é despida de curiosidade!
Eis o retrato de um animal inexótico...

Quando eu morrer não me vistam nada

Quando eu morrer não me vistam nada
Nem me apertem num caixão...
Quero ir descalço e nú,
Como um monge que fugiu
Deste cadafalso feito de almas soterradas...
Liberto enfim do grande Atilho da Vida
Embrulhem o meu corpo num lençol de linho branco,
Refúlgido...
Coloquem-me sobre uma padiola de fracas tábuas puras e sem verniz...
Dispenso epitáfios? Para que os quero?
Tumbas pesadas... de granito?Não !


Já bastou aquela em que vivi e o peso na alma que me causou!


Passei a vida a carregar esta pedra...esta tumba...como um caracol solitário.
Carreguem-me às costas,
(se houver alguém que me queira carregar)
Mas não me tapem o rosto...quero ver tudo...
Finalmente posso olhar o céu de papo para o ar...
Piscando o olho ao sol...porque carga de água os enterros são só de dia?
Eu preferia uma noite de lua cheia...
Onde as pessoas fossem iguais a si próprias..
E uivassem como lobos...em minha memória!


Numa sinfonia de uma nota só...


aúúúúúúúú....aaaa.....aúúúúú

Sou a súmula de milhares de milhões de actos de amor

Sou a súmula de milhares de milhões de actos de amor
Sou o vértice do triângulo antigo dos meus ascendentes
Sou a matéria de uma estrela descendente do grande Big Bang
O apuramento da espécie...
Quantos relógios fizeram tic tac até eu chegar?
Não muitos, o relógio é uma invenção recente!
Mas há outro relógio, o relógio imaterial...desse é que não sabemos nada!
A humanidade é como as ondas do mar,
Todos os dias chegam ondas à costa da vida,
Desembarcando delas bebés na areia da praia...
alguns ...momentaneamente deixarão resquícios de espuma nessa vida,
outros nem isso...nem resquícios,nem espuma, nem vida!

Esqueci-me de mim e consubstanciei-me em outro

Esqueci-me de mim e consubstanciei-me em outro
Sou um e outro ancorado em outro
Deixo um e outro desterrarem-me de mim...
Bato três vezes no peito e...faço a minha penitência secreta...
Abro o cortinado ondulante da alma
E salto para dentro da janela da minha outra mente.
Começo a estranhar o enredo deste filme que desconheço.
Sou empurrado por uma profunda curiosidade
Como uma rajada de vento soprando mistérios...
Quero ir mais além... quero espreitar para detrás do palco..
E entro num caleidoscópio de sessões contínuas e raras.
Exijo um lugar no camarote... tem os apoios partidos...
E observo os meus pensamentos a correr no ecran voltado ao contrário...
Estou encarecidamente só e de cabeça para baixo...


Mas sinto-me livre na minha prisão domiciliária...
Estarei a ficar louco?...

Tenho o olhar turvo e confundo as imagens

Tenho o olhar turvo e confundo as imagens
Toco com a mão no espelho do meu rosto
E fico silencioso perante mim...
Oscilo entre o espanto e o bloqueio da vista...
Sorrio para liquefazer a minha alucinação
Depois convido-a com gestos obscenos...
Tomo o xarope mágico, e ...que maravilha...sou eu novamente...
Ponho o braço à volta de mim...dou-me um abraço apertado..
E... de braço dado comigo para não me perder de vista...
desabitado de alma volto ao meu quarto...
docemente encosto a cabeça na minha almofada de penas... de galinha pedrês.
E adormeço...erguido e encontrado no sono...

Apoderam-se dos nossos domínios com tecnologias de ponta

Apoderam-se dos nossos domínios com tecnologias de ponta...
Como se cagassem em cima de nós
Como cães que mijam nos recantos a marcar território
Lançando olhares baixos e circunspectos...
E nós... somos como faquires vivendo e dormindo em camas de pregos...
Por vezes também brincamos com o fogo
E ocasionalmente arremessamos beijos que queimam
Como sinais de fumo de respeito...
Não gostamos de carregar estes objectivos sem confissão
Estas manobras em sentido contrário ao nosso querer
Deveríamos poder acertar contas... mas somos calmos e pacíficos
Quando nos deveríamos vestir de inquietude e beligerância....
Mas... somos apenas homúnculos serviçais submetidos aos interesses dominantes

Os seus esgares ilustravam medos agónicos

A sua dança tenebrosa e desvairada era exibida em posicões bizarras
Os seus esgares ilustravam medos agónicos
Pressentíamos pelo barulho das pernas
Que dançava com ossos ocos...
Como missas místicas sem crentes...
Vomitava uma espuma ocasional e sem sentido
Produzindo uma retórica nojenta e de acaso
Como um impostor político ou um vândalo da alma.
Reinava a desordem nos seus olhos raiados de fogo
Como num espelho maniqueísta do estar e ser
Depois de despido do seu delírio
A sua grotesca forma humana uivou sordidamente
E... com esgares assassinos...
Defendeu o aniquilamento do homem...ou grande parte dele...
Berrou contra os pacifistas que o queriam agredir
E disse: a Terra tem excesso de lixo-homem
As pessoas amontoam-se como impurezas em barracas de lata
Estão vivos e enlatados...franzinos..escanifrados...
Mas...se nascer uma acção...uma necessidade de ar puro...
Se os miseráveis se organizarem numa só vontade..
Vexando os cânones instituídos e esquecerem direita e esquerda...
E se se lembrarem da desigualdade de direitos existente...talvez...
Estavamos todos acéfalos pela lógica dele...
Mas todos...todos mesmo todos...silenciosamente concordámos.

Reinará um dia a tolerância?


Reinará um dia a tolerância?
Resistiria o homem uma vida de paz e concórdia?
Descem estas dúvidas sobre mim...
Como galáxias encobertas por um verão pardo...
Mas é tudo tão impalpável,
Arrastado...flutuante...
Como uma voz nadando num lago tímido de esperança!

A vida emurchesse-nos e torna-nos camelos corcundas

A vida emurchesse-nos e torna-nos camelos corcundas
Dobra-nos sob o peso da realidade mal digerida
As formas verbais estiolam com os anos...acham que não vale a pena..
Calam-se... entupidas pela merda propangandeada
Os horizontes grandiosos da juventude encolhem
E a visão da realidade desatina embaciada
Cantamos nostálgicos... músicas que mal recordamos
Manipuladas em solfejos obscurecidos pela inércia...
Acordar...dormir...eis a nossa directiva existêncial...
Às vezes lá tocamos as partes mais recônditas


para ver se ainda lá estão...se ainda não murcharam...


como flores que precisam de carícias para sobreviver...
Às vezes...lá conseguimos ser nós...raramente...
Às vezes...a nossa emissão de sentimentos rompe-nos o peito
Mas no curto espaço temporal de nascimento e decadência
A maior parte do tempo...seguimos curvados...
Como anjos prometidos ao fogo que cai em cascata
Caído em chuviscos de um céu puro e esquecido de nós.

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