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palavrasfelinas

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Uma rosa será o centro do mundo

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Vi um tempo amargo em cada esquina..um reluzir de sinais a engendrar vazios

Conheço os tempos insaciáveis..as rimas dos exilados..as serpentes

Agarro-me às luminosas paisagens...de repente parece que as chamas se apagam

As utopias que arderam num torvelinho..são apenas esqueletos de ideais

Procuro a lógica da harmonia..o caos do corpo..o desapego das solidões

Que eu me arraste..que eu beba as inversões das fotografias...

Que torça as rimas..e que a semântica se evapore..

Das águas nascerão as mãos convulsas..a delicadeza das falas maternas

E do agitar das ruínas..virão vagas ferrugentas..blocos de pedra em decomposição

É possível que algum dia as sombras se dilatem...

Que as Hydras se afoguem..e que Delfos se engane...

Chegará o silêncio..as folhas serão tapetes dourados...

E uma rosa será o centro do mundo

De todos os destroços..talvez se erga um Deus desconhecido..

E um soturno piar de coruja será a chave que abre a noite encardida

Nada restará da desordem dos átomos..o vento retardará o aroma dos sentidos

Nada chegará ao fim...tudo será princípio

Talvez vejamos o zénite da alegria a descer numa nave de sombras

E na selva escura se revoltem as luzes das estrelas

Desagrega-se a alma..fuzilam-se as palavras..e o que resta...

É a beleza das constelações aflitas...por não verem homens..

 

 

Escuto a música aquática das conchas

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Permaneço..espero...escuto a música aquática das conchas

A lua aparece sobre a inaudível maresia..

Fala-me de segredos e de passos que se foram

Brandas vagas..fotografias convulsas...delicados peixes...

Tudo chega com a frescura do crepúsculo...

Vejo os restos de alguma sereia distraída... agarrados ao afiado bico das gaivotas

É a poeira da cidade a enganar a noite..é o peso da alma a denegrir os olhares

Esboço a paisagem..bebo as estrelas...

Conheço o cais onde o meu corpo será impregnado do cheiro amargo do lodo..

Talvez alguém traga uma cítara... toque a melodia do sonho...

E eu me agite em convulsões de alegria...

 

Cheguei à vida imaginando que o meu tempo era infinito

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Cheguei à vida imaginando que o meu tempo era infinito

Que os meus pés que pisavam a areia e se molhavam no espelho das praias

Eram os cúmplices que eu precisava para a viagem

Que os reflexos dos navios amavam o infinito da gaivotas

E os solstícios que vagueavam rente às ondas..eram a textura dos dias inacabados

E havia uma linha por onde a luz se escoava...um apito de vento que caía sobre as ondas

Uma planície feita de sensações e chão carregado de sinais

Espero ainda que o mar me traga a página em branco...

Que um bando de andorinhas-do-mar permaneça junto às falésias

Para eu ter a ilusão de ser feito de penas e asas..

De voar pelos recantos onde o reflexo das palavras possua a geometria da solidão

E me explique os pressentimentos do tempo...a medida inodora do silêncio

A escala da alma perante o branco caiado das paredes

É tão longa a sombra da azinheira...é tão grande um rosto sem nome

Que entre medir o tempo e viver ...há um dislate de que se agarra aos corpos

Como um olhar que olha sempre em frente..

E não vê vivalma...

 

Dois quilos de palavras..

Gosto da maneira como os dias se esquecem de inventar o mundo

Gosto de praticar a arte de percorrer a vida com os olhos desprotegidos

 

Há um abismo entre a razão de existir..e a emoção intolerável dos teus lábios

Há uma largura alta e forte na tua alma...e um prazer permanente a adocicar as emoções

 

Gosto de apertar em mim todas as dimensões do espaço...

E depois de beijar o infinito..inventar palavras de amor ..

E escrevê-las com a minha língua no teu corpo nu...

 

É excessiva esta tempestade de lágrimas..há tanta gente dentro das lágrimas..

Que a tempestade é sobretudo uma forma anónima de te amar...

 

Chamo por ti e fecho os olhos..pratico a inexistência de ser saudade...

E paro dentro dos silêncios da tua voz..

 

 

Há uma geografia dentro de um orgasmo..uma maneira de aplacar os temores...

Resta-nos..o gosto de ser carne...

 

Prometo que dentro do frio moram as fragilidades da morte..abro-te como a uma porta

E esqueço-me de sair...

 

 

O invejoso

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Para o invejoso, toda a felicidade ou qualquer conquista que o outro consiga é motivo de irritação ou de contrariedade. O invejoso quer tudo para si, quer que todos os seus desejos se concretizem, e torna-se amargo quando não atinge os mesmos objectivos que os outros conseguem. O invejoso não percebe que ao ficar contrariado com o sucesso dos outros, não está a atingir o outro, mas a si próprio, porque enquanto ele está amargurado, o outro está feliz e nada que o invejoso possa fazer ou dizer, vai alterar o estado de espírito daquele que ele inveja...

 

Voltam os lugares...

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Voltam os lugares...lugares iguais a outros lugares

Volta o langoroso espaço..solfejo de marés e fios de ruas vazias

O dia folheia-se..observa o despertar esquivo dos rostos

Além está o abstrato..aqui a distância que se apega à pele

Bebemos a soma dos corredores..pelas vozes perpassam cativeiros...

A ansiedade é uma luz..um patamar do existir...uma nova forma de exortar os dias

A luz..esse soneto que se senta nos alicerces dos cegos..esse sol ambíguo

A luz está para além de todas as mortes...dorme nas planícies...

Desdobra as suas cores pelo chão feito de cantares límpidos...

Asa de ave desprendendo-se do vácuo do silêncio...

Perder-nos-emos junto à solidão...alguém nos encontrará sôfregos e exaustos

Limparemos então as mãos aos nomes e aos rostos..

Beberemos as sombras que descem dos tempos antigos

Daremos um salto em falso...seremos um casario lento..

Viveremos dentro de uma ânsia de rigor e estética celeste

Nos pátios...nas cidades..ninguém restará para recolher os nossos passos

Acordaremos em todos os lugares...nos mesmos onde dormem as praias...livres

Viveremos rente ao veludo do chão...presos na voz adormecida dos pássaros

Abriremos as nossas cores..seremos flores que olham cara a cara a brisa e o vento

Por fim..desceremos pelo cheiro extasiado do verão..rumo a todos os rumos

Como se queimássemos a noite dentro dos nossos olhos...

 

 

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