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palavrasfelinas

palavrasfelinas

Nunca cheguei a saber de quantas letras precisava para chegar a ti

 

No fim..tudo voltará a ser como nos primeiros dias

O céu pouca atenção nos prestará...as aves serão apenas passagens

E o verão...será como um molhe atado ao nosso corpo...um barco solitário

Na limpidez dos olhares veremos corações..versos surdos à intempérie

Paralisados pelo asco das migalhas que restam na mesa suja onde comemos

Bastava uma palavra e todas as cicatrizes da memória ficavam curadas

Bastava um abraço...um apertar de lumes...um cheiro de vida

E tudo seria água fresca escorrendo pela milenar fonte da nossa alma

Mas há a insónia..esse navegar pela noite..esse mastro atacado pelo escuro

Nunca cheguei a saber de quantas letras precisava para chegar a ti

Nem a quantidade de véus opacos que sobrevivem aos sonhos

Mas há ainda o cheiro do quarto esvaziado de nós...

Mas há a penumbra onde ainda te vejo... despida

Tão jovens e com tantas coisas dentro..

Que até os suspiros eram beijos onde as lágrimas pousavam

E perante a incerteza das águas...desfizemos a ternura em charcos lamacentos

Avançámos..deixámos na nossa esteira uma sombra em branco

E os peixes diziam que a vida era a espuma que se colava aos nossos pés

E as estradas diziam que a vida era o pó que se colava ao nosso corpo

Mas nós...nada dizíamos...apenas olhávamos o ar...

Parados... na vida...

 

O 5 para a meia-noite

Ontem um dos  convidados do 5 para a meia-noite foi o Joaquim Monchique...para mim foi o convidado mais lúcido( ou com mais coragem que por ali apareceu) ele teve a "audácia" de dizer que aquelas perguntas que pretensamente servem para ter piada, não têm graça nenhuma nem sequer ponta de inteligência, depois aquela questãozinha de qual é o teu palavrão preferido, só para ouvir o convidado dizer que é..." foda-se" só porque se tem que ser ordinário, além disso sempre gostava de saber a quem é que interessam os palavrões dos artistas...e quando o convidado  não o diz, cai o carmo e a trindade, pois o Joaquim não disse e lá ficou a Cautela de beiço caído, coitada da rapariga a ter que dar a cara por aquelas tretas que lhe mandam perguntar...enfim... também  há por lá algumas coisas que fazem rir, é verdade...mas apesar da minha crítica de vez em quando vejo...sempre gostei de ver figuras tristes...já agora..a ordinarice inteligente tem graça..a outra, a gratuita é uma tristeza...

ai os jornalistas

Outro dia uma jornalista entrevistava um rapaz que ia assistir a um concerto de um artista estrangeiro(não recordo o nome), a páginas tantas e como tinha que encher "chóriços" e já não sabia o que lhe havia de perguntar, dispara: então e qual é o motivo que te trás aqui?....lá fiquei eu a pensar:deve ser a música...ou o rapaz foi lá para cortar o cabelo?

Nos mapas desconhecidos há ácidos cios...

Era uma pedra preciosa...uma saudade...um porão deitado num estreito mar

Agarrei-me a ela como se agarrasse o outro lado da rua

Caminhei...senti as primeiras chuvas e o barro dos corpos ocultos pelas miragens

Avistei ilhas..separei-me do meu corpo e esperei que a alegria acabasse

Pelas tábuas do soalho vi deslizarem cios e cantos de cigarras..noites quentes

Membros entrelaçados na milenar forma de amar

Subi ao esquecimento das águas...senti a vibração opaca da alma

E foi como se avistasse a luz que irrompe pelo sono mais temido

Sono ou ar? Alma ou falésia? Trigo ou vagas embebedando-se nos bordos dos navios?

Ácidos deuses esperam por nós...rubros esquecimentos irão encontrar-nos

Avistaremos as sombras...os mastros...as sílabas..

Mas porque nos desviamos da alegria?

Porque evitamos essa pátria que se nos pega à pele?

Cansaço de mãos...sono perscrutando o ventre das espadas..cortantes frios

Nos mapas desconhecidos há ácidos cios...fomes...saudades

E ardendo no sol tatuado com miragens...vejo espelhos...lumes...cascos...galopes

Vejo todas as coisas que ardem no medo...vejo as raízes...as sementes...o frio do mundo

E vejo redes que pescam vidas calejadas por nevoeiros...

Como muros de pedras desfazendo-se na água fresca

Paralisados em tons de ocre-azulado....como minúsculas certezas...

Como oxidações de almas ruborizadas pela fome..de ser sal...e sangue vivo...

 

 

 

Escutei as lendas que contavas...

Passei pelos gestos..pelas cores..e deixei para trás os retratos

Embarquei num eco feito de estátuas

Aprisionei os barcos e tirei proveito da infindável solidão dos pauis

Ainda hoje vejo as formas e as razões que o tempo carrega

Tempo aberto ao riso das viagens...aos ossos que carrego como uma bagagem

Ao súbito sentir dos ventos e ao rumo das areias

À força inesperada da solidão..ao corpo e ao sentir dos espelhos

Queria relatar a força das flores e o secreto abandono das medusas

Passei pelas algas e cresceram-me os instantes

Magoei a visão nostálgica dos dias..saltei com as corças e voguei pelos teus olhos

Enigmáticos sons imitavam o teu sorriso...debrucei-me sobre a tua boca

Escutei as lendas que contavas...como velhas fábulas cheias de luminosa paz

Mas não esqueci a esparsa ausência dos teus sinais

E por breves instantes desci aos longínquos dias

Onde a brancura cristalina dos corais me falava de extensas ilhas

Que o incerto mar deixava conhecer

E que eu bebia como uma luz que atravessava os recônditos lugares...

Onde possivelmente te encontrarias..

 

Quem terá sido o primeiro mentiroso?

A mentira é uma das coisas que me fazem pensar...Quem terá sido o primeiro mentiroso? Quando é que nasceu a mentira? Sabe-se que há dois tipos de mentirosos, os que mentem porque têm necessidade de que reparem neles e os que ganham alguma coisa com a mentira e por isso mentem com um objectivo.Assim aquele que obtém ganhos com a mentira mente cada vez mais, torna-se um viciado, há nele uma espécie de anestesia moral. Mas o mais grave é que hoje os aldrabões são considerados "espertos", há uma indiferença pela mentira, uma opacidade de reacção, e todos conhecemos aquela frase que se diz quando um mentiroso "VIP" é apanhado: " são todos iguais e quem se lixa é o mexilhão", ora o mexilhão é aquele que quer minta ou não tem que colar os cacos que o GRANDE MENTIROSO quebrou e aceita esse fardo pacientemente.



 

A minha mão segura aquilo em que acredito..

Sinuosos caminhos cruzam-se como facas espetadas na noite

Pouso a minha mão neste fardo que se aconchega a mim..era eu?

Ou era um nó na garganta a gorgolejar silêncios?

Nada..basta-me o vento a agarrar-se ao banco onde sento a solidão da tarde

A janela..os barcos...o relato das coisas simples

A seguir..vem o consolo de me desmoronar para cima de ti...

De me aproximar do mundo..de rir...de resistir a todas as gotas de veneno

Deambulo pelas desculpas..ninguém quer saber de segredos

Nem de corpos estendidos..a prestar vassalagem ao tempo

São estas coisas que nos fazem sentir...que somos química e astrologia

Silêncios estendidos sobre a água..borboletas..ócios...forças que não temos

A minha mão segura aquilo em que acredito...as horas...as perdas...o filtro da urgência

Tropeçamos nas ratoeiras dos rios...nas vozes...naquilo que se estende à nossa frente

O mundo é uma cegueira...um hieróglifo incapaz de explicar porque se amam os corpos

E na falta do riso...desembarcamos em espinhosas margens..agarrados ao voo das aves

Posso dar-te tudo o que quiseres...todas as hipóteses de seres nome e rumo

Hei-de fazer das tuas pálpebras...o meu olhar...o meu mundo...

E a imperdoável certeza de saber...coisa nenhuma...

 

 

Em todos os cadernos há nódoas de nevoeiros..

Dissipo-me..poeta e homem na volatilidade dos dias

Erguendo a bandeira das palavras sob a forma de cadernos atirados ao vento

Sigo a noite.. e os anos..e as mortes..aproximando-me da última página

Da página desarrumada...esconsa..aquela onde se cruzam pensamentos e olhares

Em mim cristalizam-se manhãs..listas intermináveis de santos e loucos...

Rabiscos..memórias...locais mágicos...e a traição de mais uma página...em branco

Sento-me no passeio de uma qualquer rua anónima..como eu...

Como o riso que estendo a quem me olha

Viver não é só um hábito...é um porto...um ancoradouro...

Viver é procurar no fundo das palavras...a página..

A tal página onde o segredo se desvenda..e a praia se desdobra em rostos

Há bagos de uvas caídos pelo chão...ilustram os nomes das nódoas que nos cobrem

Vinho...poema..e a subjetividade de ser alguém sentado na rua

Seguir...simplesmente cruzar a ponte de cristal...o olhar..alguém

Rir dos silêncios..e não saber onde colocar os dedos..solitários..mãos solitárias...

Em todos os momentos há traições e alegrias e chuvas encarniçadas

Em todos os cadernos há nódoas de nevoeiros...demoras..aproximações

Se queres fazer alguma coisa..vai correr o mundo..ilustra a tua página

Calcorreia a imaginação....acontecem romances em todos os quadrantes

Em todos os rostos que não queremos esquecer..em todos os pavios de velas..latentes

É preciso despertar o outono...morrer de fartura...corroer a absorção das águas

E rabiscar...lentamente... os silêncios...

 

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