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palavrasfelinas

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Que ventos arrepiam a luz secreta dos infinitos?

 

Que lugares desconhecidos se sentam junto à heráldica fonte dos deuses?

Que ventos arrepiam a luz secreta dos infinitos?

Que pressentimentos se escondem nos pórticos assombrados da paz?

Longe dos solilóquios celestiais há castelos feitos de Alma e Destino

Há passagens que penetram no infinito da Alma

Há sombras aquecidas pela fornalha interior das montanhas

E longe dos olhares...ficam os abismos prateados dos corações trémulos

Ficam as florestas encantadas por homens desconhecidos..ficam as lamentações do frio

Porém... sentimos todos os prazeres quando ouvimos o canto dos rouxinóis

Sabemos então que há vida nas penas da aves...que há abismos que são transponíveis

E a hera...encima as paredes..esconde ninhos de carriças encantadas...aquece o frio das casas

E no agrilhoado das nascentes..secretas águias esmiúçam a pele dos homens

Como trovoadas impelidas por almas descrentes...no dourado florir dos dias

Renascemos..renascemos dentro do enigma...

Que nos aquece...

 

E eu ali..feliz ...

 

E eu ali..feliz ...como quem não sabe para onde vai

Eu que gostava tanto de ser noite e perder-me no enigma das manhãs

Eu atento..eu feito de um asfalto que eu próprio empedrei

Ali..em mim..nasceu o grande festival dos elípticos choros

A grande irrealidade...a fome de pensar que as coisas nunca acabam

Ali..no meu interior..nasceu um Universo

Revejo esses minutos como quem vê a monotonia das aves

Revejo esses súbitos abanões do meu corpo...como bulícios algemados numa redoma de aço

Pelos meus olhos passaram todos os movimentos dos corpos cansados

Do céu caíram estalactites intemporais..barcos...anjos...

Silêncios de sepulcros cansados de serem apenas..sepulcros... e nada mais

Eterna era a hélice que inundava o mar com ruídos de ferro retorcido

E sobre as frescura das coisas que partem pairava uma pele dura

Encarquilhada numa carne sem fim nem princípio

E no torpor das vastas planícies..as manhãs clamavam por mais aves..por mais verde

As manhãs queriam ser elas próprias aves..voar..como almas em descampados de mistério

Queriam ser a luz que desliza pela erva como uma dor feita pelo cansaço de ser dor

E o sol...e os paquetes cheios de pessoas sem rosto nem maresia

E o pensamento que voa em direcção às coisas que o anoitecem

Como marítimos seres..lá vamos... seguindo a ancestral rota do corpo

E do vácuo...

 

Temos a idade de ser força e encanto

Temos a idade de ser força e encanto, abraçamos o que resta da nossa vida e mancando lá vamos em direcção ao corredor onde já partimos a jarra de loiça rara, saímos e enchemos a vida com o aroma das tílias, e das nossa mãos saem obstinações de sermos diferentes, qual é a nossa imagem, sim, qual é a imagem que despontamos no olhar dos outros? Não sabemos, não podemos sabê-lo! Anna Arendt diz que " Ser, não é nada mais que ser um", e é isso mesmo, somos um, e por isso abafamos a nossa angústia com sorrisos, como se fôssemos o livro na estante, sempre pronto a ser desfolhado, a ser espiolhado, a ser riscado.... ainda se fosse por alguém que nos soubesse ler...

 

Todos os dias ao acordar esperamos que "o dia" seja mais que um um dia

Todos os dias ao acordar esperamos que "o dia" seja mais que um um dia, que seja uma viagem, que seja um socalco que subimos em direcção à felicidade, e depois... seguimos de mangas arregaçadas, passamos por árvores que não vemos, por despontar de sóis que não nos cegam, por chegar atrasados ao local do nosso descontentamento.Gostávamos de abrir a porta que dá para a nossa azia (seja ela qual for) e qual Alice, entrar num palácio mágico onde pudéssemos dar aso às nossas libertações. Gostávamos de ser espaço, imagem, e mesmo até voltar a ter a ilusão de que a vida é mesmo isso, uma ilusão, essa ilusão que deixámos há tanto tempo para trás.Gostávamos que as sombras que nos rodeiam se transformassem num castiçal de luzes coloridas, e que o ardor que nos faz esquecer que temos olhos para ver a beleza,se apagasse,e todas as coisas luzissem como aromas encantados por lindíssimas melodias.

Gostávamos de derrubar paredes e janelas, abrir de par em par o nosso peito angustiado. queríamos até que alguém nos massajasse as têmporas, as costas, o corpo todo com aromáticas essências mágicas, para que à nossa roda pairasse o aroma da felicidade. Mas engolimos em seco, seguimos, e amanhã voltaremos a acordar...

 

E com tudo isto são quatro da tarde

 

E com tudo isto são quatro da tarde

E no meio destas horas olho o mar que as gaivotas tatuam

E os seus voos encharcados em lodo

Preenchem os espaços que as cidades deixam vazios

Lembro-me de correr pela noite num barco feito de securas

Lembro-me de ser um nome sem forças nem nexo...

Um sonâmbulo a correr pelas ruas

E são quatro da tarde..e são todas as horas que não posso contar

E são todas as coisas que a tarde apaga numa melancolia de veias sedentas

Afasto-me porque são quatro da tarde..bebo todas as cores da tarde

Reconheço que depois das quatro da tarde a memória fica magoada

E que na visão das flores despontarão estioladas primaveras..obscuras primaveras

E porque são quatro da tarde..o mar sangra risos de barcos perdidos

E mesmo que reconheça que há aço nos olhares...

Às quatro da tarde tudo me parece vazio

Talvez mais logo a noite me venha dilacerar com as suas estrelas

Talvez mais logo eu me encontre numa imagem fixada noutros olhos

E depois?!!!

Mas agora são quatro da tarde...

E mesmo que eu saiba que as distâncias acabam na foz dos rios

E que as infâncias conduzem os homens aos naufrágios

E que as noites são barcos plenos de solidões

Agora não deixa de ser quatro da tarde...

E vejo o tronco nu das palmeiras agitando-se numa ironia de desertos

E vejo comboios e o silêncio das rodas sobre os carris

E o mar que às quatro da tarde se enche de azuis anilados

Mas que importa que toda a vida escorra em direcção a um medo que sangra doçuras

O que importa realmente..é que são quatro da tarde...

E a noite não tarda...

 

Quem lê não mente

Quem lê não mente*(pelo menos enquanto está a ler),só por isso já devemos amar os livros,mas o que procuramos nos livros? Distração? Histórias que não vivemos mas que gostaríamos de viver? Ensinamentos? Nos livros há prantos, flores de todas as cores e até inexplicáveis sentimentos que não sabemos sentir sem estar a ler. Há lágrimas nos livros e choros de luzes que se afogam nas páginas que lemos. Os livros são uma protecção contra a falsidade dos momentos em que somos apenas uma personagem invisível, ali, no livros estamos nós, somos o nosso próprio espelho e há tantos livros como espelhos, há tanta sabedoria nos espelhos como nos livros que espalhamos pelo nosso dia-a-dia. Quando começo a ler um livro tenho sempre esperança de que ele vá mudar algo dentro de mim, por isso posso falar de esperança quando inicio alguma leitura.É claro que todas as palavras e todos os livros nascem do interior de quem escreve, mas quantas vezes não estamos nós ali, alimentando-nos daquela história, comendo aquelas frases, bebendo aquelas personagens? Eu acho que os livros são fotografias de situações, de pressentimentos, de objectos parados na imensidão da nossa memória, é por isso que se pudéssemos agarrar a luz, ela certamente se condensaria na página de um livro, como se fosse uma emoção que nos iluminasse...

 

* frase extraída do livro "O livreiro de Paris"

 

 

Inertes jazem as palavras...

Inertes jazem as palavras... desfeitas pelo passado

Imaculadas cadeias prendem-nas na secura falsa do papel

Formam livros..escuridão...vida..sentimentos

No fundo... são apenas imagens de um espaço a zunir na nostalgia da nossa alma

Tal como o silêncio é um eco trágico do espaço

As palavras lentamente esquecem quem são...

E partem dentro da nave escura do quotidiano

 

 

E mesmo que corra toda a cidade

E mesmo que corra toda a cidade a procurar a tua mão

E mesmo que a queimadura que me invade se disfarce de tédio

E mesmo que esgravate na tua ausência todos os momentos que fomos

Sei que as minhas forças se dispersam por outros lugares

Sei que os meus lábios já não se aconchegam na fissura ambígua dos teus ombros

Sei que há um veneno sedento do sangue acre que se dispersa pelas ruas

E depois....também sei que a solidão está gasta

E mesmo que a memória se corte na lâmina do passado

Nada trará de volta...o corpo...o sangue a ferver...o fascínio das visões tatuadas na pele

As certezas de que os sonhos ainda vivem na boca das flores

E nós..distantes..a avançar mar adentro..a afiar a a secura das vagas

A saber que a saliva é um veludo sobre a pele seca dos sargaços

Talvez ainda nos restem ilhas distantes...areias desesperadas nas praias onde não fomos

Talvez o mar se torne sonâmbulo..e durma connosco na dilaceração das noites

Talvez os sonhos se tornem sagrados...

E a lua se aproxime da chuva que cai no sangramento dos dias

E uma e outra vez as imagens vêm...as feridas retiram-se...os corpos adormecem

Plenos...como fotografias de uma luz extasiada...

Ou como pequenas tatuagens de estrelas

Que se vêem em firmamentos de aflição...sós...completamente absortas...sedentas

Da tragédia do Homem...

 

Baú de memórias#6

Scan5.jpg

 (Moçambique 1968,Nampula)

Muita gente não sabe que tivémos uma guerra colonial, não é culpa sua, é culpa de um sistema que teima em esconder os erros do passado.Nesta foto temos uma amostra do clima tropical,chove a cântaros,há soldados  em tronco nu, mas no canto esquerdo vemos um negro descalço que não participa na "festa", quase como se  estivesse com medo de se aproximar.

Como um bote que parte sem velas... nem vento...

Há toda essa espécie de passado a ferir-nos a lucidez inabalável dos dias

Há todo esse sentir que o destino é uma assombrosa aventura da consciência

De que nos serve todo o Universo a dispersar-se no nosso sangue?

De que nos serve descobrir a flecha distendida pela mão do futuro?

De que vales..de que águas..de que ânsias se fazem os contentamentos do mundo?

Olho a rua..e vejo candeeiros que se acendem para a noite exorbitante de olhares

E penso ...de que verdes se fazem as árvores no escuro nocturno?

Que silêncios ecoam nos coágulos brancos das memórias?

Sabemos que o mundo é uma garra que se ergue na penumbra ansiosa dos remorsos

Sabemos que o cerne da Morte reside no inabalável clarão da Vida

Sabemos que a brancura da espuma vem das profundezas do céu

E que os olhos voam... tal como as aves se sentam nos bancos das nuvens

Mas o Mundo..essa extensão de vales e de passados

Essa ansiedade exposta aos vendavais que se erguem das aflições

Essas almas..quase vida..quase nada..quase tudo...

Espalham-se nos prados..ecoam nas lezírias...sobem até ao último cansaço dos corpos

E há trovoadas...há impressões...há cheiros a cinza..compactos..fluidos...verdadeiros

E as copas das árvores dançam na loucura dos quartos

A alegria é uma recta oblíqua e fantástica... a empurrar o céu para dentro de nós

A estalar na manhã das neblinas ofuscantes...a empurrar-nos para dentro do além

Como um bote que parte sem velas ...nem vento...

 

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